sábado, 11 de dezembro de 2010

Monteiro Lobato e Pedrinho: Uma literatura infantil

Monteiro Lobato e Pedrinho: Uma literatura infantil



 Ludemberg Pereira Dantas

Entre os séculos XIX e XX, a Literatura Infantil surge patrocinada por autores que escreveram livros para crianças. Antes da ascensão da burguesia não havia livros de literatura específicos para os pequenos e, se eles quisessem ler, deveriam fazê-lo utilizando-se de textos adultos. Publicada entre os anos 20 e 40, as editoras começam a prestigiar o gênero. A fantasia e a criatividade foram diretamente disciplinadas, bem como a valorização da nova e atuante geração modernista, com uma forma de expressão verdadeiramente representativa do povo brasileiro, a exemplo do maior representante: José Bento Renato Monteiro Lobato.

Sabendo aproveitar o momento contemporâneo, Monteiro Lobato passa a criar personagens de diversos apelos e representação social. Seus contos de fadas apresentam cenários para se envolver em temas como a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento industrial, a emancipação econômica; vivenciando um universo imaginário.

Entre as obras de Lobato, a que surge em especial nos primeiros livros, trata-se do Sítio do Pica Pau Amarelo, uma propriedade até certo ponto característica da economia agrícola brasileira. Com características apresentadas às das fazendas cafeeiras paulista, o Sítio nasce como uma metáfora ao Brasil, passando a representar cada vez mais o país como ele desejava que o fosse: o país do petróleo, da autonomia econômica.

“O Sítio de Dona Benta ficava num lugar muito bonito. A casa das antigas, de cômodos espaçosos e frescos. Havia o quarto de Dona Benta, o maior de todos, e junto o de Narizinho, que morava com sua avó. Havia ainda o “quarto de Pedrinho”, que lá passava as férias todos os anos; e o da tia Nastácia, a cozinheira e o faz-tudo da casa. Emília e o Visconde não tinham quartos; moravam num cantinho do escritório, onde ficavam as três estantes de livros e a mesa de estudo da menina”. (LOBATO, Monteiro. O sítio de Dona Benta).

Com a Revolução Industrial, as crianças burguesas passam a representar papel importante na sociedade, já que precisam ser preparadas e capacitadas para o futuro, através da educação, a fim de enfrentar um mercado competitivo em rápida expansão. Os jovens devem ser preparados para serem vencedores em um mundo em constante disputa. Dessa forma nasce a literatura para crianças como um auxiliar das escolas na formação do pequeno cidadão em seu aprendizado dos valores capitalistas, ou seja, a literatura como um agente doutrinário. Esse desenvolvimento da literatura infantil serve de apoio para a formação de uma identidade nacional.

Com obras educativas e divertidas, Monteiro Lobato produziu metade de sua produção literária com livros infantis. Leu tudo que havia para crianças em Língua Portuguesa. Foi estudante do curso de Letras, além de perceber na infância, talento pela arte de desenhar. Tornou-se bacharelado em Direito. Dizia sempre o que pensava, agradasse ou não. Defendia a sua verdade com unhas e dentes, contra tudo e todos, quaisquer que fossem as conseqüências. Era a favor de uma arte devidamente brasileira. Passou a tratar os livros como produtos de consumo, com capas coloridas e atraentes, e uma produção gráfica impecável. Sua vida e sua obra ainda hoje servem de inspiração e exemplo para milhares de crianças, jovens e adultos do Brasil.

“Pedrinho não podia compreender férias passadas em outro lugar que não fosse o Sítio do Pica Pau Amarelo, em companhia de Narizinho, do Marquês de Rabicó, do Visconde de Sabugosa e da Emília. E tinha de ser assim mesmo, porque Dona Benta era a melhor das vovós; Narizinho, a mais galante das primas; Emília, a mais maluquinha de todas as bonecas; o Marquês de Rabicó, o mais rabicó de todos os marqueses, e o Visconde de Sabugosa, o mais “cômodo” de todos os viscondes. E havia ainda tia Nastácia, a melhor quituteira deste e de todos os mundos que existem. Quem comia uma vez os seus bolinhos de polvilho, não podia nem sequer sentir o cheiro de bolos feitos por outras cozinheiras”. (LOBATO, Monteiro. Em férias).

Em consideração a obra, Caçadas de Pedrinho, percebe-se a magnitude de um pequeno garoto, capaz de levar suas idéias e ações usando da mais suprema esperteza, atenção e inteligência. Sempre atencioso para as estranhezas presente no Sítio, Pedrinho representa o menino que nada tem a temer a não ser sua “ousadia” em descobrir e mostrar-se capaz de encarar todas as aventuras.

Uma onça do Capoeirão dos Taquarussus faz-se presente no Sítio do Pica Pau Amarelo. Sabendo da notícia daquele novo habitante, o garoto busca não revelar para Tia Nastácia e Dona Benta, afirmando para a turma querer ir à caça do animal. Essa característica, muito presente no personagem, é freqüência dos ideais de Monteiro Lobato, em construir uma figura masculina capaz de mostrar-se detentora de uma autonomia, de um poder, de liderança, capaz de responder e ser presente nas decisões de um grupo.

Vencendo-os a caça à onça: Emília, Narizinho, Cléu (a famosa que falava pelo rádio e de vez em quando escrevia cartas a Narizinho, que estava de visita ao Sítio), e Pedrinho, revelando-se entre todos: o maior responsável para tal fim, quando usa de sua espingarda, com pose nas escondidas da vovó. É quando, passa então a ser desafiador, querendo algo mais aventureiro e difícil. É nesse momento, que o “grande menino pequeno” busca viver mais e mais planos.

“Desde essa aventura ficou Pedrinho com mania de caçadas, mas caçadas de feras africanas. Queria leões tigres, rinocerontes, elefantes, panteras, e queixava se a Dona Benta (como se a boa senhora tivesse culpa) da pobreza do Brasil a respeito de feras. Chegou a propor-lhe que vendesse o sítio para comprar outro bem no centro de Uganda, que é a região da África mais rica em leões.” (LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho. 1933).

A caça presente na segunda parte da obra é a favor de um rinoceronte. Pedrinho, na companhia de Emília, boneca de pano esperta, sempre presente nas histórias de Monteiro Lobato, usam de artimanhas para ter em mãos um animal diferente e único entre eles: um rinoceronte fugido de um circo do Rio de Janeiro, que aparece no Sítio de Dona Benta. Esse momento é levado na obra como uma suposta crítica a política brasileira, quando os personagens adultos surgem com imagem de corruptos, tendo a certeza e o desinteresse de não encontrar o animal, possibilitando assim, a garantia de uma estabilidade financeira, perdendo o emprego caso conseguissem caçá-lo. Toda esperteza, planos, dos pequenos, em especial de Emília, fazem com que o animal permaneça também entre todos os moradores do Sítio.

A figura do personagem Pedrinho, desperta no leitor e também no público em geral, a imagem de um garoto corajoso e inteligente, capaz de encarar as mais arriscadas aventuras para uma criança. Essa idéia de “menino valente” possibilita a construção de um ser digno de superação, na certeza de que todo o medo deve prevalecer distante dos objetivos, quando eles surgem no propósito da dignidade, da valorização à vida, da superação às dificuldades, da garantia de erguer-se diante as conseqüências e tornar-se capaz, forte e vencedor.

Caçadas de Pedrinho é uma obra bem recebida pelo público em geral, um livro bastante trabalhado nas salas de aula pelos professores. Classificando como uma ficção do autor, a mensagem presente garante ao público leitor a certeza de que a obra lobatiana é rica na fantasia dos personagens, na realidade brasileira, com uma crítica à política do momento. Monteiro Lobato deve prevalecer na leitura do público em geral, mostrando o valor da Literatura Infantil, capaz de identificar nas palavras a garantia de uma vida melhor.

Referências bibliográficas

ZILBERMAN, Regina. Literatura infantil: livro, leitura, leitor. In: __Belinky, Tatiana. A produção cultural para crianças. 4. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1990;

LOBATO, Monteiro. Caçadas de Pedrinho, Edição Integral e Ilustrada. Vol. III, Arlindo San, 1933;

LOBATO, Monteiro. O sítio de Dona Benta.

3 comentários:

Milton Cardoso disse...

Realmente, Ludemberg, trata-se de um de seus melhores textos. Com clareza e objetividade, você captou todo o sentido da obra do grande Lobato - um escritor que soube aliar profissionalismo com tino comercial, e desvendou, tal como Lima Barreto, a verdadeira face do Brasil. E ainda ousam defini-lo como racista por descrever a fada Tia Nastácia tal como ela era, uma negra bondosa, criativa, cheia de crendices e encantos... Lendo o seu texto, senti saudade do Sítio do Pica Pau Amarelo. Acho que vou ler uma de suas aventuras ainda hoje!

Ludemberg disse...

Que bom que gostou Milton. Eu tb fiquei com vontade de continuar lendo as histórias de Monteiro Lobato. Muito boas. Realmente um grande escritor!
vlw.

Alexandre disse...

Olá, cheguei..rs !
Teu texto está genial!
Uma pena eu não ter lido, ou assistido nenhuma das obras de M. Lobato...uma vergonha, eu sei!
E, pra não dizer que não li, li apenas o livro "A negrinha"...e achei fantástico, e com apenas esta bagagem pude ver a veracidade da obra do autor nas tuas palavras.
Perfeito!
Abraço,

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