sábado, 24 de setembro de 2011

A diversidade e seus fenômenos linguísticos presentes no livro A língua de Eulália juntamente com a experiência em visitar os nativos do Vale do Pati


A diversidade e seus fenômenos linguísticos presentes no livro A língua de Eulália
juntamente com a experiência em visitar os nativos do Vale do Pati

Ludemberg Pereira Dantas

Com a Diversidade Linguística, percebemos o quanto que a língua falada e escrita sofrem alterações que acabam gerando um estudo sobre a cultura de cada localização. No livro A Língua de Eulália, publicado em 1997 por Marcos Bagano, vemos uma valorização das palavras por parte das professoras e estudantes Vera, Sílvia e Emília, que vão de encontro a Irene, uma linguística que está escrevendo um livro sobre variação linguística. Eulália, uma empregada e amiga de Irene deixa transparecer “erros” de português, considerados inadequados para a Língua Padrão, com isso, lhe é ensinado os fenômenos da língua, a fim de explicar a lógica do funcionamento das variedades linguísticas para combater o preconceito linguístico.


Em consideração a essa diversidade, ao estudo e compreensão dos fenômenos linguísticos, tive a oportunidade de visitar e fazer a trilha do Vale do Pati, região da Chapada Diamantina, na Bahia. Lindo extenso e profundo, o Vale do Pati é considerado um dos vales mais belos do mundo. Suas encostas são cobertas por mata atlântica, o que o torna ainda mais especial.

Além do imenso prazer em estar em lugar onde a natureza reina com tanta beleza, tive a oportunidade de conhecer uma família de nativos que é única no local e assim, perceber sua forma de comunicação. Conheci também uma artista plástica chilena em formação, Marlene Molina Soto, tendo a oportunidade de “conversarmos” um pouco em espanhol e conhecer também sua cultura, tendo-a como companheira de trilha.

Escondido, com acesso restrito, (não existe estrada para carro) o Vale do Pati (foto à baixo) conheceu seus primeiros moradores no começo do século XX. Uma seca muito forte na região foi o motivo que levou os nativos dos arredores a buscarem no Vale fértil e úmido a sobrevivência.


Foto de Marlene Molina Soto, artista independente de nacionalidade chilena

Com o fortalecimento da cultura do café, o Vale do Pati junto com o Vale do Capão tornaram-se os maiores produtores de café da região. É nesse período que o Vale conhece o apogeu, contando com mais de dois mil moradores, um centro comunitário, com comércio e igreja. O café também foi o motivo de sua decadência, quando a política republicana da época, resolve estatizar e erradicar a cultura cafeeira para majorar os preços no mercado mundial. Essa politica dá início ao êxodo da maioria dos habitantes, e consequentemente o Vale recupera suas matas, que foram subtraídas para dar lugar às plantações do café. Hoje o Vale do Pati é protegido por seus moradores que não chegam a 50 pessoas e pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina.

Foi a partir daí que comecei a ter a curiosidade de perceber os fenômenos linguísticos presentes naquela comunidade, onde vi união, respeito, educação, amor, em vivenciarem um lugar onde a paz reina entre família e é oferecida também aos turistas, uma vez que a família trata cada visitante com toda atenção possível.

Em contraponto à personagem Eulália, da obra de (Marcos Bagano), fiz uma relação com os moradores do Vale do Pati, a exemplo de Dona Raquel (foto à baixo) um exemplo de ser humano. Idosa, mãe de 14 filhos, onde 2 faleceram e os 12 permanecem no Vale com um comportamento fruto de uma educação humilde. O esposo hoje abriga em um povoado vizinho por motivos de saúde.


Foto de Marlene Molina Soto

Em diálogos e observações sobre o modo de falar de Eulália, a empregada e amiga de muitos anos de Irene, as jovens aprendem, perplexas, que palavras pronunciadas de forma considerada errada, como "os fósfro", "os home", "as pranta", "os broco", "as tauba", "os corgo", "a arvre", o "R caipira", "tamém", além da "língua de índio": mim fazer; são na verdade formas diferentes de pronúncia, e que não podem ser vistas pelos educadores como "erradas" ou "pobres", mas sim diferentes do padrão.

Em conversa com dona Raquel, percebi por exemplo, a pronúncia da palavra trabaiá, fenômeno conhecido como yeísmo, acontecido pela troca do LH por i devido a comodidade maior de pronunciar o i, quando “ela falava que seus filhos começaram a trabalhar muito cedo, onde todos sempre foram responsáveis”. Ainda referente ao yeísmo, temos o exemplo das palavras abêia: abelha, bataia: batalha, cuié: colher (substantivo), fia: filha, etc, muito comum também entre a família de dona Raquel.

O fenômeno rotacismo que é a troca de L por R pode ser explicado através da origem das palavras no latim. Exemplos: chicrete, frauta, frecha, pranta, ingrês, pubrica, Creusa, craro, prano, etc.

Muito gratificante também foi ouvir de dona Raquel, a apresentação de uma parte da mata (foto à esquerda) tida para ela como a “televisão”, por ser referente ao local onde a imprensa faz entrevistas com ela e família. Quando chega algum repórter, ela os leva para o local tido como cenário para suas entrevistas. Busquei ser fotografado no local e ainda brinquei com ela dizendo: - “vou tirar uma foto aqui dona Raquel pra dizer que sair na ‘Grobo’”, palavra pertencente ao fenômeno linguístico rotacismo.



A diversidade linguística, a diferenciação de um modo de falar de região para outra, apesar de sofrer certo preconceito, é explicado cientificamente, através da linguística, da história, da sociologia e até mesmo da psicologia, merecendo assim um respeito pela língua não padrão, uma vez que nos é permitindo o entendimento da mensagem.

A assimilação é outro fenômeno que ocorre com palavras usando a troca das consoantes de ND em N e de MB em M como, por exemplo, falando que passou a falanno e depois falano, pois o som dessas consoantes é próximo.

A redução ocorre quando as vogais E e O são pronunciadas como i e U.

A contração das proparoxítonas em paroxítonas ocorrendo também na norma padrão, visto que as palavras proparoxítonas em latim passaram a ser paroxítonas no português padrão, exemplos: ovo: ôvu; ele bebe: êli bebi; alegria: aligria; chovia: chuvia; cabeludo: cabeludo; fortuna: furtuna.

O arcaísmo que ainda permanece em regiões afastadas das metrópoles brasileiras, é outro fenômeno linguístico comum em nosso dia a dia, por exemplos: abancar-se (sentar-se, dispor à volta da banca); anágua (roupa íntima feminina); andaço (diarréia, pequena epidemia); apalermado (bobo, idiota); arigó (matuto); arrelia (zanga, briga, discórdia, barulho); biboca (cova, casebre); bigu (carona); bufete (pancada com a mão); brocoió (matuto); breguesso (objeto indefinido, coisa sem valor); bruaca (bolsa); cabroeira (coletivo de cabras); caçuá (cesto feito de cipós); califon (sutiã); cancela (porteira); candeia (lamparina), em fim.

A analogia causa a mudança de classe gramatical de algumas palavras por causa do som de uma vogal e o caso do pronome oblíquo mim que vem sendo um “erro” cometido desde 1872 como ficou registrado no romance Inocência, escrito pelo Visconde de Taunay, sendo muitas vezes usado pelos falantes da norma culta, pode ser explicado, dentre outras maneiras, pelo fato do pronome mim ser tônico e procurar enfatizar a oração como em “João trouxe um monte de livros para mim escolher”.

Comparando Eulália e Dona Raquel (foto à baixo), pude perceber o quanto que a variedade, juntamente com os fenômenos linguísticos são relevantes para o nosso comportamento social.


Foto de Marlene Molina Soto

Devemos respeitar cada cultura, cada vocabulário, no momento que eles têm um significado, buscando até mesmo aprendermos com a língua não padrão, onde cada dialeto passa a dar vida ao que consideramos “norma culta”.

É importante a valorização da língua portuguesa no seu estágio independente, até porque a língua, a diversidade linguística, sempre estarão em construção. Conhecer dona Raquel (nativa), Marlene (estrangeira) e os fenômenos linguísticos, foi para mim uma grande satisfação, em saber que toda uma gente, toda uma cultura, sempre apresentarão uma nova forma de vida, com comportamentos aceitáveis para a construção de uma identidade.


Marlene Molina Soto (foto):
“Eu achei que a viagem foi uma revelação de beleza e cultura.
Vale do Pati faz parte do nosso Planeta. Devemos cuida-lo e protege-lo sempre”.


Foto de Marlene Molina Soto



Referências Bibliográficas:

1. BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2008;

2. Sites visitados em setembro de 2011:

http://www.terrachapada.com.br/rt_trekkingnovaledopati.php;

http://odiabonomeiodarua.blogspot.com/2010/04/o-yeismo-uma-revolucao-linguistica.html.


Análise da propaganda Super 8 Motel


Análise da propaganda Super 8 Motel
“Nossos clientes que se fodam”
                                                                                                            Adson Moreira ¹
                                                                                                          Fabiane Ferreira          
                                                                                                               Ludemberg Dantas

Robério Pereira Barreto ²

Resumo: Esse artigo propõe a análise da propaganda do Motel Super 8, de autoria de Ivan Malusá Romanini no contexto interpretativo de múltiplas visões partindo da frase “Nossos clientes que se fodam” e “Honestidade. Algo que a empresa tem e que metade de seus clientes não.”. Essa análise também tem como base o ethos discursivo, princípios sociais e discursos constituintes referentes à religião no que se refere à honestidade/fidelidade.

Palavras-chave: Propaganda, contexto, honestidade, discurso, analise, religião e fidelidade.

1.      Introdução

Este artigo discute o sentido da palavra no texto publicitário, sabendo-se que: “(...) todo ato de enunciação é fundamentalmente assimétrico: a pessoa que interpreta o enunciado reconstrói seu sentido a partir de indicações presentes num enunciado produzido”. ³
Dessa forma cada enunciado tem sentido atribuído pelo enunciador, sendo decifrado por um enunciatário que dispõe do mesmo código, que fala a mesma língua, mas isso não significa que a enunciação coincida com a intencionalidade do enunciador.
Para entender um enunciado é necessário mobilizar saberes muitos diversos e não podemos analisá-los semanticamente fora de um contexto, pois os enunciados assumem um lugar em um momento especifico.

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¹ Discentes do Curso de Letras, turma 2009.2, Universidade do Estado da Bahia - Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas - Campus XVI – Irecê – BA. adsonkm@gmail.com, fabianemedusa@yahoo.com.br, ludembergpereira@hotmail.com
² Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação, da PPGE da Faculdade de Educação – FACED/UNEB, Linha 2 Filosofia, Linguagem e Práxis Pedagógica. Mestre em Educação docente, Currículo e Tecnologias intelectuais, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus I – Salvador – Ba. Professor do curso de Letras e Pedagogia da UNEB – Campus XVI – Irecê – Coordenador do Núcleo de Linguagem e Tecnologias do Ciberespaço do Campus XVI – Irecê. jpgbarreto@gmail.com
³ MAINGUENEAU, 2005, p. 20.

2.       O discurso do humor

Na atualidade o discurso do humor e o código no qual se engendra estão disseminados por todas as esferas sociais, estando presentes e permeando os mais diversos discursos como: o da publicidade; o da moda; o da indústria cultural; o do meio político; as manifestações da sociedade civil, as obras de arte, etc. Enfim, o humorismo passou a ser um dos principais mediadores das relações com os outros e com o mundo. 4

O humor tem seus sentidos e propósitos primordiais esvaziados, pois se em outros tempos estava ligado ao escárnio, à crítica ácida e agressiva, ao riso zombeteiro e ao discurso não oficial, na atualidade o humor acaba por se tornar instrumento do esvaziamento tão em voga no contemporâneo. As ideologias, as posições e discursos são neutralizados pelos gracejos lúdicos e divertidos tal como apontado. Além disso, o discurso do humor contemporâneo é caracterizado principalmente por ter se tornado produto para consumo individual, isto evidentemente se seguir certos padrões, ou seja, para ser aceito deve estar submetido a certas concessões, se adequando à superficialidade de um consumo fácil, assimilando um tom politicamente correto e assumindo um caráter light, leve, eufórico, cool e fun.
Já o humor politicamente incorreto seria uma forma de humorismo diametralmente oposta àquele praticado e veiculado no contemporâneo, dentre outros fatores, por estar em consonância com características expressivas e inerentes deste gênero da linguagem. De modo geral, podemos dizer que o humor sempre foi caracterizado por um forte viés “negativo”, ou seja, caricatural, ácido, grotesco, escatológico, iconoclasta, etc. o qual é facilmente identificável no humor politicamente incorreto. Embora este tipo de humor fuja ao praticado e ao padrão em nossa sociedade, classificada por Lipovetsky (2005) de sociedade humorística, aquele se faz presente em diversas manifestações culturais ou políticas, como nos desenhos animados, nas charges, nos blogs, etc.





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 4 JUSTO, 2006, p. 103-112

  1. Enunciação na propaganda Super 8 Motel


O enunciado pode ser pragmático quando mostra de uma maneira ou de outra, valor pragmático, o ato que deseja realizar por intermédio de seu enunciador. Então as condições materiais de apresentação interferem no sentido. A propaganda do Motel Super 8 ganha pragmatismo quando mobiliza o conhecimento dos hábitos sociais colocando nas paredes cartazes de valor pratico onde o enunciatário deve identificar no enunciado a intenção de significar o que ele significa de entender a intencionalidade do texto.
Com relação ao contexto, primeiramente, Maingueneau o define como “seqüências verbais encontradas antes ou depois da unidade a interpretar”. 5 Dessa forma o texto publicitário do Motel Super 8 deve ser entendido como um enunciado pragmático (expressa uma finalidade cheia de intencionalidade) e o texto “nossos clientes que se fodam” não pode ser analisado sem a referencia “Super 8 Motel”, pois perderia o sentido.
Isso significa que o enunciatário certamente terá que analisar o contexto levantando hipóteses para explicar as proposições implícitas principalmente da palavra “fodam”, que no sentido apresentado faz menção ao que o cliente fará dentro do motel e não se trata de um insulto, impressão que se tem ao abordarmos o texto separadamente.
Esse tipo de propaganda deve ultrapassar o limite de uma mera piada e também deve ser adequada a linguagem de propaganda, como se de fato pudesse vender o produto.
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5 MAINGUENEAU, 2005, p. 27.

4.      O Ethos da propaganda

Partindo para o “ethos” de que “toda fala possui “um enunciador encarnado”, ao analisar esse ethos podemos observar que ele precisa de uma representação que reesignifique o enunciado de quem fala, de onde fala e analisar se essa voz é de alguém que entende do assunto que freqüenta motel, e que certamente precisaria de uma comunicação rápida,  levando em consideração que “os casais” não estariam ali para perderem tempo, portanto a linguagem informal, diria em poucas palavras o que eles querem de fato, sem se preocuparem com o duplo sentido , já que a propaganda é de um motel. Desse modo, uma comunicação simultânea.
Caso a frase fosse empregada por uma propaganda de supermercado por exemplo, “nossos clientes que se fodam”, certamente esse supermercado não teria  nenhum cliente, pois automaticamente a frase teria outro sentido, que nesse caso representaria de fato um xingamento, afronta colocando assim o cliente distante da empresa. “Em geral o individuo que fala e se manifesta como ‘eu’ no enunciado é também aquele que se responsabiliza pelo enunciador”.
Todavia existe uma maneira mais simples do enunciador se desresponsabilizar pelo discurso, é quando ele se apóia em outro discurso “modalização em segundo discurso” em que podemos tomar como exemplo:

a França segundo fontes bem informadas prepara uma represália, ou seja, o segundo discurso se apóia num sujeito oculto retirando quaisquer responsabilidade em relação a autoria do discurso.6

            Já o ethos possui um tom que dá autoridade ao que é dito. Esse tom permite a construção desse enunciador da um corpo para essa voz. Voltando para a análise da propaganda do Motel Super 8, podemos observar logo abaixo da frase principal o fechamento dos discursos com uma outra mensagem que diz o seguinte: “Honestidade. algo que a empresa tem e que metade de seus clientes não”. A sinceridade atribuída ao discurso reforça a ideia de honestidade da empresa, levando em consideração que nem todas as pessoas, clientes são honestas.
Em uma analise a “grosso modo”, nos parece que todo tempo a propaganda do motel tem a intenção de tirar o cliente do sério, de afrontá-lo e ate mesmo de duvidar de
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6 MAINGUENEAU, 2005, p. 139.
sua honestidade. Outra forma de interpretação mais minuciosa permitiria uma análise mais cabível em relação a “essa não honestidade da metade dos clientes”, poderia referir-se a supostas traições de casais que usam o motel como refugio de práticas extraconjugais, ou ainda para praticarem homicídios.
Toda a ideia de honestidade, fidelidade, parte de princípios religiosos sustentados em paratopias relacionados ao casamento que tem como slogan: “ate que a morte os separe”. É valido observar que todo o discurso de ordem romântica ultimamente não tem se sustentado.     

  1. Intertextualidade

“Intertextualidade diz respeito aos modos como a produção e a recepção de um texto dependem do conhecimento que se tenha de outros textos com os quais ele, de alguma forma, se relaciona” 7. Partindo desta definição geral, podemos afirmar a alta relevância que tem no cômico, uma vez que, principalmente nas relações em que estabelece com outros textos é que residem os sentidos que provocam o riso.

O discurso só adquire sentido no interior de um universo de outros discursos, lugar no qual ele deve traçar seu caminho. Para interpretar qualquer enunciado, é necessário relacioná-lo a muitos outros – outros enunciados que são comentados, parodiados, citados, etc. 8

  1. Parodia e Sátira

Parodia e sátira são mecanismos intertextuais muito utilizados nos textos cômicos. Os dois termos não são sinônimos, entretanto carregam algumas características semelhantes. De modo geral, podemos dizer que em ambas há um texto primeiro na qual se baseiam e se referem de modo caricato e irônico, contudo ou o novo texto produzido será repetido com diferença, como no caso das paródias, ou será criado a partir da crítica de alguns elementos presentes no texto base, como temos na sátira.

A paródia é, pois, na sua irônica “trancontextualização” e inversão, repetição com diferença. Esta implícita uma distanciação crítica entre o texto em fundo a ser parodiado e a nova obra que incorpora, distância geralmente assinalada pela ironia. Mas esta ironia tanto pode ser apenas bem humorada, como pode ser depreciativa. 9
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7 KOCH, 2000, p. 46.
8 MAINGUENEAU, 2008, p. 55.
9 HUTCHEON (1989, p. 48)

5.  Texto e Discurso

            O texto apresenta uma sistematização do que a linguagem é capaz de oferecer ao seu leitor. No decorrer de uma leitura, existem várias possibilidades de nos depararmos sempre com conceitos de conceitos, isso nos leva a adquirir informações capazes de significar os enunciados, havendo um entendimento com o que vem a ser apresentado, de forma prática ou detalhada.
            O leitor parte de uma existência literária desde tempos passados. Presentes nos mais diversos tipos de leitura, o leitor ativo passa a ter com as palavras novas formas de ir em busca pela informação, onde o significado surge sempre com a possibilidade de oferecer alternativas e caminhos a novos passos, novas descobertas e idealizações.

O texto só interessa agora como operador de leitura visto dentro de um contexto pragmático de interpretação, que é tanto o do espaço universitário quanto o de seu entorno, de alguma forma o “mundo”, hoje em sua fase de globalização ou de mondialisation, como se diz em contexto francês. 10

Remetendo a uma visão do que uma ideia significa, o texto se classifica também como um “idealismo pensante”, onde tudo ou nada pode vir a acontecer. A força de um texto está presente nas mais diversas formações ideológicas, onde novos contextos, a organização dos signos linguísticos trazem a necessidade de inserção a novos textos juntamente com o diálogo, onde “o discurso fala o que as palavras significam”.

O foco principal é falar do discurso, no nível do “já dito”, permanecer no ambiente em que a manifestação da alteridade de cada ato discursivo, afirmando que o objetivo do método arqueológico é “definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos, mas os próprios discursos enquanto práticas que obedecem a regras.” 11

Sendo assim, o texto vira discurso e o vice-versa. Michael Foucault, estudioso da Análise do Discurso, apresenta a formação discursiva em um aspecto de envolvimento do intelectual para a desconstrução de verdades, onde muito se vê nas suas afirmações a construção e desconstrução da palavra, tendo-a como uma forma de poder.
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10 Uma reflexão recente sobre o lugar da universidade na sociedade contemporânea se encontra em L’Université sans condition (2001), que se traduziu em a Ed. Estação Liberdade (2003).
11 FOUCAULT, 1986, p.182-183

6.  Considerações

            Levando em consideração o estudo de um discurso paratopico, onde existem a inclusão e exclusão de um significado por parte do enunciado, devemos ter em mente o discernimento em analisar cada texto. Assim se faz a Análise do Discurso que, no seu processo de busca pela informação, pela concretização da palavra, nos garante participar da intelectualidade a qual estamos inseridos a cada instante no decorrer de nossas leituras, compressões e compartilhamento dos signos linguísticos.
            As particularidades dos discursos nos possibilitam a compreensão dos enunciados em termos publicitários, uma vez que “o grande lugar da paratopia é a literatura, depois a publicidade”. Com isso, as demais publicidades e o exemplo em questão, quando apresentados como anúncio em defesa de um comércio, são propositais a uma invasão de busca pela lucratividade, no momento que o dito e o visto, são fundamentais para despertar atenção e adquirir meios a outros destinos, satisfatórios ou não.
Percebemos a múltipla ideia que a publicidade “Nossos clientes que se fodam” possibilita em uma leitura corrida, caso não seja identificado o local do anúncio, que no caso em questão é referente a um Motel, e ai sim o sentido “se faz jus”.


7.  Referências Bibliográficas

FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves, revisão de Ligia Vassalo. Petrópolis: Vozes, Lisboa: Centro do Livro Brasileiro, 1972. 260p. [Edição Original publicada em 1969].

JUSTO, José Sterza. Humor, educação e pós-modernidade. In: ARANTES, Valéria Amorin. (Org.). Humor e Alegria na Educação. São Paulo: Summus, 2006. p.103-112.

LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade humorística. In:  A era do vazio. Trad. Therezinha Monteiro Deutsch. Barueri: Manole, 2005. Cap. 5.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. Trad. Cecília P. de
Souza-e-Silva e Décio Rocha. São Paulo: Cortez, 2008.

Paratopias na identidade nacional: João de Santo Cristo


Paratopias na identidade nacional: João de Santo Cristo


Ana Lúcia [1]
Dagiza Nazaré
Edson De Paula
Luciana Oliveira
Ludemberg Dantas
Paulo Eduardo
Taize Mergulhão

Robério Pereira Barreto [2]



Resumo: Este artigo pretende apresentar, em linhas gerais o pensamento e a desconstrução de identidade na musica Faroeste Caboclo, de Renato Russo. A partir do estudo do personagem João de Santo Cristo, sua identidade, nacionalidade e brasilidade. Pautando-nos, sobretudo no ideal de brasilidade e na compreensão desse processo ideológico do músico e seu discurso, focalizando os conceitos teóricos da paratopia e dos discursos constituintes, usando a metodologia da Análise do Discurso na música.


Palavras-chave: João de Santo Cristo; Faroeste Caboclo, Análise do Discurso, Renato Russo.



1.      Introdução

A partir dos postulados de Dominique Maingueneau, faremos um breve apanhado sobre paratopia e discurso constituinte. Em outras palavras, o discurso constituinte, em seu estatuto, determina que ele só pode autorizar a si e por si mesmo, ou seja, não podem haver outros discursos a cima de si. Fazemos ainda uma relação das práticas discursivas em uma sociedade, que dão sentido aos atos de seus membros. O discurso constituinte possui um estatuto singular: zonas de fala e falas que tem pretensão de pairar sobre as demais. MAINGUENEAU (2010).


Os discursos constituintes têm também em si duas dimensões que são indissociáveis: a constituição com ação de estabelecer a legitimidade construindo o interdiscurso, e os modos de organização e de coesão discursiva e agenciamento de elementos que formam o texto. Quanto ao conceito de paratopia, Dominique Maingueneau afirma que é “a relação paradoxal de inclusão / exclusão em um espaço social que implica o estatuto de locutor de um texto que decorre dos discursos constituintes.” [3]
A paratopia manifesta-se em dois níveis complementares. O autor traz nestas manifestações o discurso religioso e o nível de cada produtor de texto pertencente a um discurso constituinte. Mas, por estarmos tratando da análise do discurso em música, vamos parafraseá-lo no que seria um discurso constituinte do gênero musical.
A paratopia na identidade de João de Santo Cristo, personagem central da musica analisada, expressa o pertencimento e não pertencimento, a impossível inclusão em uma topia, a paratopia assume, em J.S.C.[4] o alguém que se encontra em um lugar que não é seu, o de alguém que esta sempre se deslocando de um lugar para outro sem se fixar, de alguém que não encontra lugar, alguém sem identidade: “Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda (...) / Sentia mesmo que era mesmo diferente / Sentia que aquilo ali não era o seu lugar”.[5]
Maingueneau afirma que a música traz suas sombras, o que seria um dilema com relação à legitimidade e o que estaria ancorado no absoluto. Os seus discursos constituintes constroem identidades fortes, ancoradas nos poderes de enunciação. A constituição é criada para que em sua forma haja apreensão, do ponto de vista da análise do discurso.


2.      O Brasil na década de 1980: Rock e Política

A década de 1980, no Brasil, foi marcada pelo declínio da ditadura militar e a explosão do rock brasileiro – influenciado pelo movimento punk. Só se falava na tal liberdade política, acompanhada da afirmação de que a mesma se estabeleceria.
Ataques contra os comunistas ganhavam força, e a música denúncia tais investidas: “Não boto bomba em banca de jornal / nem em colégio de criança isso eu não faço não / e nem protejo general de dez estrelas / que fica atrás da mesa com o cu na mão” [6].
Tais versos fazem relação a ataques dirigidos a bancas de jornal que vendiam publicações de esquerda, como o realizado em 31 de abril de 1981, no Rio de Janeiro, onde duas bombas foram detonadas, visando responsabilizar os comunistas por tal atentado.
A censura existia, mas já não era tão forte. O regime militar perdia força e as primeiras bandas formadas a partir das influências do movimento punk apareciam. Tais bandas surgiram também como uma alternativa aos grandes nomes da MPB (como Caetano Veloso, Chico Buarque, Maria Bethânia, etc.), unidas ao rock por seu caráter revolucionário. 
O movimento punk chega a São Paulo em 1987. Mas, inicialmente, não se caracterizava como movimento, uma vez que, o que realmente havia eram grupos de adolescentes que imitavam toda a indumentária e atitudes dos punks ingleses deixando a música num segundo plano. Logo em seguida, o movimento chega a Brasília.
Como a música era um instrumento acessível a todos, o movimento punk vem criar o punk rock com um intuito de romper padrões. Nada de músicas bem elaboradas, o que eles queriam mesmo era um instrumental rápido, cru, agressivo, que até mesmo três acordes bastavam. Bandas como Sex Pistols serviram de influência para as primeiras bandas do estilo em terras tupiniquins. “O rock é muito mais do que um tipo de música: Ele tornou-se uma maneira de ser, uma ótica da realidade, uma forma de Competência.” [7]
A Legião Urbana incorporou tais influências em sua música, mas sua origem era diferente. Era Formada por jovens da classe média, mas com os mesmos ideais do movimento punk, assim como outras bandas que surgiram em Brasília, ao contrário do que aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além disso, realizavam um dos ideais mais importantes do movimento o – do yourself (faça você mesmo), ao utilizar de selos independentes para a gravação dos seus discos.
Os primeiros anos sem o comando militar ainda eram marcados pela sombra que o governo de José Sarney representava, um caos econômico no país e uma falta de perspectivas reais. O rock brasileiro ainda sofria questionamento quanto a sua legitimidade cultural, acusada de ser apenas uma importação anglo-saxônica, sem originalidade.
A Legião Urbana na estréia de respostas a todos esses críticos, fez muito mais do que se esperava, em sua letra musical abraçada por toda camada social do país. Cantou e tocou Faroeste Caboclo, um repente com enredo comum ao cordel, com pouco mais de nove minutos de duração: A saga de vida e morte de um nordestino chamado J.S.C.

Nas letras das músicas de Renato, estavam sempre expressadas a situação social e política do País. A saga épica de J.S.C., em Faroeste Caboclo retrata um país de muitas ilusões, aonde sonho e realidade nunca irão se encontrar.


3.      J.S.C. na perspectiva da Análise do Discurso

A análise do discurso relaciona as questões político-sociais na modernidade, possibilitando ao homem interagir como sujeito participativo de todo um processo de transformação na sociedade.
J.S.C. é apresentado como um sujeito que se permite ir de encontro a uma realidade, passando a ter respostas e conceitos do que verdadeiramente significa fazer parte de uma realidade entre homem e Estado.
João é a representação do emigrante que sai do interior para a cidade grande, em busca de melhores condições de sobrevivência, tornando-se oprimido e marginalizado, em qualquer parte do país. Vai ser ao mesmo tempo “vítima” da história e sofrer sua própria via-crúcis, por ser negro, pobre e nascido no campo, no interior da Bahia, conforme veremos adiante, bem como ser um grande homem porque teve um ideário nobre que foi o de querer pedir ao presidente que ajudasse seu povo sofredor. “Ele queria era falar pro Presidente / Pra ajudar toda essa gente que só faz... / Sofrer...” [8]
O destino de João é traçado, quando de encontro com um boiadeiro em Salvador, toma partida em direção à cidade de Brasília, lugar de grande representação política, “detentora do poder”. A capital do país será onde João acabará vivendo a maior complicação de sua existência; será lá onde criará seu plano santo e será simbolicamente crucificado, por se firmar na intenção de lutar a favor da melhoria da qualidade de vida dos pobres e oprimidos.
Mesmo com uma marca de homem valente, ele é caracterizado também como um sujeito sensível mostrando-se no interesse de formar família, arrependido dos seus pecados, com vontade de ter um filho com Maria Lúcia e de estar em seu trabalho humilde.
João se descobre com um destino, do qual acabará tendo de “sofrer as consequências como um cão”. A traição de sua amada, o duelo que terá com Jeremias, visto como representativo do mal. Embora fosse do “bem”, João acaba morrendo e o conflito só acaba quando ele mata também seu assassino, Jeremias, por meio da interseção de Maria Lúcia, a quem acaba perdoando no final.
Um J.S.C. ao mesmo tempo herói e santo. Um sujeito marginalizado e oprimido pela sociedade por ser negro e por acabar tornando-se contrabandista de drogas. Um verdadeiro anti-herói que, embora fugindo da lei, era ético, queria o bem comum da sociedade, que acabou sendo traído por uma pessoa estimada, fato que corroborou para o seu final, conforme veremos adiante.
Entregando sua vida em busca de uma utopia, bastante otimista em ver as coisas do jeito que gostaria que elas fossem João apresenta uma riqueza literária e uma profundidade crítica, quando mostra a representação de um sujeito capaz de despertar seus interesses e lutar em favor de uma melhoria, podendo ele não responder as expectativas.


4.      O movimento de João de Santo Cristo no mundo do discurso

A interação entre o sujeito e a sociedade passa intrinsecamente pelos discursos constituintes ou paratópicos legitimados.  Através da análise do discurso da música Faroeste Caboclo, vivenciada pelo personagem J.S.C., percebe-se uma série de paradoxos entre o sujeito e a sociedade que o circunda, colocando em xeque os valores instituídos e a construção de uma identidade pautada numa vivência do cotidiano permeada por outros valores que não os idealizados pelo senso comum. As relações de poder vivenciadas pelo personagem se fazem presentes desde a mais tenra idade até o seu desfecho como suposto mártir de um Brasil tão carente de heróis.
A sociedade enquanto instância de valores corrobora um ideal a ser seguido. João, nome tão comum que chega a ser anônimo, e por isso mesmo arquétipo, simboliza uma figura caricata do ideário brasileiro entre o que deveria ser e o que realmente é. Os inúmeros Joãos ao longo da letra fazem analogia a uma sociedade que, a todo o momento, pode mudar a identidade do sujeito devido a suas experiências com o cotidiano principalmente no lado afetivo: “Foi quando conheceu uma menina / E de todos os seus pecados ele se arrependeu / Maria Lúcia era uma menina linda / E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu.” [9]

 A noção de sujeito sociológico reflete a crescente complexidade do mundo moderno e consciência de que este mundo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas era formado na relação com ‘outras pessoas importantes para ele’, que mediavam para o sujeito os valores, sentidos e símbolos – a cultura - dos mundos que ele /ela habitavam. [10]

Partindo desse pressuposto, faz-se necessário a análise das ideias de Maingueneau (2010) com relação aos discursos políticos referente à paratopia que implica controvérsias ante a necessidade de legitimação pautada em outras instancias, sejam elas religiosas, filosóficas ou literárias. O estado enquanto mediador dos aparelhos ideológicos segundo Althusser impõe seu modo de sujeitamento:

Sob essa ótica, o sujeito não só age sob uma determinação de ordem ideológica como também – e principalmente – se constitui através da ideologia, enquanto estrutura-funcionamento que impõe, sem parecer fazê-lo, as evidências como evidências, de forma que ao sujeito resta apenas reconhecê-las como tal, desconhecendo o processo que as torna evidentes. [11]

Entretanto, a figura de J.S.C. digladia com meandros mais complexos na sociedade, dialogando com os mecanismos de poder estatais que ilham o ainda menino J.S.C., relegando-o a uma conduta contrária ao que é legalmente preestabelecido, tendo em visto que J.S.C. desde cedo percebe, através dos instrumentos de coação e punição do estado e da formação sócio-cultural em que está inserido, quão limitado movimento a que sua trajetória de vida está determinada.
Quando criança só pensava em ser bandido/Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu (...) / Aos quinze, foi mandado pro o reformatório / Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror (...) / Não entendia como a vida funcionava / Discriminação por causa da sua classe e sua cor.[12]

João de Santo Cristo, Cristo por si mesmo, trilha e contempla a via crucis de sua vida, condenado às mortes das manifestações de seus eus neste labirinto que é constituir-se como           indivíduo, pluralidade presente ao longo da letra, devido às diferentes vivencias do personagem na sua trajetória, culminando no seu ocaso. “Entremeado de vieses paratópicos o discurso político engendra sua própria autolegitimação” [13], porém o tropismo em relação aos discursos constituintes permite uma aproximação daquele aestes, tramando a tentativa de substituí-los, fato gerador dos extremismos que a história nosnarra. Podemos considerar que este lapso existente na autolegitimação do discurso político, imanente a sociedade, reflete na
construção do sujeito, observando-se o campo microcósmico do qual faz parte, fator relevante para parcial quebra do ethos produzida pela figura de J.S.C., como percolada sua individualidade do naco sólido da sociedade.
O personagem, tanto subversor da ordem vigente como paladino imbuído da missão de defender os valores morais, carrega em si o reflexo da indeterminação dos discursos agindo, portanto, ora como mímico do ethos, ora como desconstrutor:
 Não boto bomba em banca de jornal/Nem em colégio de criança isso eu não faço não / E não protejo general de dez estrelas / Que fica atrás da mesa com o cu na mão (...) / Agora o Santo Cristo era bandido / Destemido e temido no Distrito Federal / Não tinha nenhum medo de polícia / Capitão ou traficante, playboy ou general. [14]

Perante a metamorfose deste personagem trágico para a edificação de sua identidade, de acordo com Ciampa, “uma totalidade contraditória, múltipla e mutável, no entanto una” [15] Santo Cristo, mesmo diante da desigualdade oportunizada pelos aparelhos ideológicos do estado, consegue transcender, referenciando a milhões de outros Joãos a transposição dos limites de seu lócus social, assim como fez Jesus Cristo ao desafiar o poder instituído através do seu “estar no mundo”.
Para tanto, após morrer pela terceira e última vez, Santo Cristo, a guisa de muitos heróis e mártires, atravessa a história do mundo com sua própria história, onde o povo o declara santo, “E o povo declarava que João de Santo Cristo/Era santo porque sabia morrer” [16], onde o mesmo, com sua insignificância perante o conjunto meteórico e metafísico das leis, dos costumes e dos poderes, consegue re-significar a sua existência e repercutir a sua imagem como indivíduo, modificando os conceitos a que está subjugado, como cantara Maiakovski: “O mar da história/ é agitado./As ameaças/ e as guerras/ havemos de atravessá-las,/ rompê-las ao meio,/ cortando-as/ como uma quilha corta/ as ondas.”[17]

5.      Da análise do nome próprio João de Santo Cristo

Da composição até seu lançamento, a música Faroeste Caboclo percorreu um período marcado por grande carga sócio-política. Escrita em 1979 e somente lançada em 1987, período este em que o país era governado por um regime militar – desde o golpe de estado em 1964 até 1985, amúsica contém grande carga crítica à situação em que se encontrava a população brasileira: totalmente desamparada pelo governo nacional.
Renato Russo escolheu, para o personagem principal da música supracitada, o nome de J.S.C., nome este controverso em si. Da análise do prenome (João),observa-se sua larga utilização pelo povo brasileiro, sendo corriqueiro vislumbrar esta denominação para nomear os indivíduos. Partindo desse pressuposto, podemos inferir que o cantor/compositor escolhera esta nomenclatura como forma de generalizar, de simbolizar todo o povo oprimido num único ser.
Quanto ao sobrenome do personagem, temos um adjetivo (Santo) seguido de um nome próprio (Cristo) e ligado ao primeiro nome pela preposição de. A denominação “santo” é comumente utilizada pela igreja para dar título a alguém por sua benfeitoria. O nome Cristo faz referência ao próprio Jesus Cristo citado na bíblia, assim como o nome de alguns personagens; faz referência também ao processo pelo qual passou o J.S.C. desde seu nascimento até a sua morte.
O sobrenome colocado no João surge como um meio de torná-lo santo, de abençoar o seu futuro. Inicialmente, de santo, o J.S.C. só tinha o sobrenome. No seu desenvolvimento como pessoa, ele oscila entre o bem e o mal existentes em si, instigados a partir do meio social em que ele está inserido e das relações formadas nesse meio. O sobrenome só serviu mesmo para traçar-lhe um destino semelhante ao Cristo – que lhe empresta o sobrenome, e para dar-lhe a “salvação”, já que o mesmo foi tido como santo.

6.      O não lugar da Utopia

Utilizando-nos do verso que trata da ida de J.S.C. a Brasília, fazemos uma rápida viagem na história do Brasil e suas capitais: “Estou indo pra Brasília / ‘Neste país lugar melhor não há’ / E num ônibus entrou no Planalto Central / Ele ficou bestificado com a cidade / Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal / ‘Meu Deus, mas que cidade linda’...” [18]
Logo após o descobrimento a capital do país é fundada em São Salvador, capital do atual estado da Bahia, cercada por fortes e construída na parte alta da cidade para evitar possíveis ataques estrangeiros.
Com o passar dos anos e a chegada da Família Real, a capital é deslocada para o Rio de Janeiro. Depois são estabelecidas as formas de governo no nosso país que passa a ser dirigido por presidente, ministros, ente outros. E com Juscelino Kubitschek na presidência surge a idealização de uma nova capital, que é erguida, no que diríamos aqui, interior do país, localizado no Planalto Central. Uma cidade Projetada por Oscar Niemeyer, “intacta” desde a época da sua inauguração – em 1960, até os dias de hoje, onde só os seus arredores – as cidades satélites, e periferias é que aumentam a cada dia.
A partir da inauguração da capital Brasília – “a cidade linda”, a população brasileira - com um destaque aos nordestinos, uma vez que o próprio Renato afirma que o seu personagem vem do interior da Bahia com destino à Brasília acreditando, mais uma vez no sonho utópico de resolução dos seus problemas; que no êxodo, na fuga daquela vida severina, vai conseguir livrar-se dos problemas comuns ao lugar de onde veio: seca, fome, pobreza, entre outros.
Com essa utopia compravam (e compram) passagens de ônibus e adentram no Planalto Central e como “João” ficam bestificados com a cidade ao veremtoda aquela beleza; e sonham com o novo emprego e com a cidade linda e suas maravilhas e a mudança de vida.
Renato Russo traz a revelação de como é o ritmo de vida nesta “cidade linda”: “E o Santo Cristo até a morte trabalhava /Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar /E ouvia às sete horas o noticiário / Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar” [19]
Os ganhos com o trabalho terceirizado, mas honesto, não supria o alto custo de         viver na capital do país. Então ao conhecer seu primo Pablo e receber propostas de dinheiro fácil, o J.S.C. resolveu aceitar produzir e traficar drogas como o mesmo. O referido noticiário trata-se do “Hora do Brasil”, constituído por notícias do governo que até hoje continua no ar e com o mesmo objetivo, informar a população dos projetos e ações governamentais. Ao ouvir a Hora do Brasil todos alimentavam esperanças do tipo “a situação vai mudar”. João, como muitos, “não queria mais conversa” [20]. As promessas políticas já não faziam tanta diferença.
Com o aumento da população, nos arredores de Brasília, surgem as dificuldades, e com elas movimentos sindicalistas para aqueles que acreditavam que havia soluções para sanar os problemas do povo. Mas houve também a criminalidade onde o nosso personagem enveredou-se.A utopia volta a prevalecer. O sonho às vezes custa muito caro para a população às margens da sociedade.
Quando foram a estas grandes cidades utópicas em busca de mudança de vida e viram os seus planos serem engolidos por traficantes, “boyzinhos”, “playboys”, ou generais com o intuito de ascender na pirâmide social, sendo estes personagens engendrantes da perpetuação da desigualdade social. Na dança da vida o nosso personagem é engolido pelas luzes de Brasília, a cidade que nasceu para diferenciar-se e destacar-se. Mas que, para muitos trata-se apenas, no seu sentido figurativo, da supervalorização de sua própria desgraça.
Aqui relatamos o termo que usamos para Brasília, “a cidade intacta”, que da época da crítica social de Renato Russo e o grupo Legião Urbana, e que é o lugar onde está constituído o nosso sistema de governo “do povo para o povo”, mas que o povo não consegue “falar com o presidente para pedir que toda essa gente” [21] possa ter o direito de receber auxilio as suas carências e de viver dignamente.
De acordo com Patrick Charaudeau, nas instâncias de transmissão, a música em estudo traria as informações temáticas acerca das denúncias sociais presentes. Mas, a canção poderia aqui ser levada ao pé da letra? O grupo Legião Urbana canta, mas o que é cantado expressa necessariamente o pensamento da referida banda? Haveria um ponto de vista ingênuo?“As informações contidas tem seus objetivos e a comunicação social também. Entre eles, a ética e o respeito a modelos mesmo não estando explícitos” [22]
A construção do sentido, as palavras usadas em situações recorrentes e seus valores fazem o efeito da verdade que não deve ser confundido com o valor de verdade presente nos dois casos a necessidade de relação humana com o mundo. “Crer ser verdade. É questão de verdade, mas também é uma questão de crença”  [23].
A banda, no discurso da música Faroeste Caboclo tem, diante de si:
O crédito que se pode dar uma informação depende tanto da posição social do informador, do papel que ele desempenha na situação de troca, de sua representatividade para com o público de que é porta-voz, quanto do grau de engajamento que manifesta com relação à informação transmitida [24]

A instância-público entra em cena, o grupo tem origem brasiliense, conhecem e constroem, ao longo dos versos, representações, ações e lhe atribuem valores. O que torna possivelmente verdadeiro o discurso. É pertinente a validade dos problemas apresentados.


7.      O espaço como construção de identidade

Em Faroeste Caboclo, o encontro com o boiadeiro representa um novo direcionamento na trajetória do personagem.  J.S.C., assim como milhares de sertanejos que vão à cidade grande em busca de melhores oportunidades, vê em Brasília uma possibilidade de uma nova vida. 
(...) E comprou uma passagem foi direto a Salvador /E lá chegando foi tomar um cafezinho /E encontrou um boiadeiro com quem foi falar / E o boiadeiro tinha uma passagem /Ia perder a viagem, mas João foi lhe salvar: / Dizia ele - Estou indo pra Brasília /Nesse país lugar melhor não há / To precisando visitar a minha filha / Eu fico aqui e você vai no meu lugar / E João aceitou sua proposta /E num ônibus entrou no Planalto Central / ‘Meu Deus, mas que cidade linda, no ano novo eu começo a trabalhar’.[25]

A cada ambiente, sobrepõe- se uma nova experiência na vida de J.S.C. O movimento constante no decorrer da sua história remete a um processo de construção de identidade no qual cada sujeito desenvolve suas potencialidades em decorrência do contexto em que está inserido. 
Stuart Hall pensa o sujeito contemporâneo, como ser sociológico, que entende a identidade como algo formado na sua interação entre o Eu e a sociedade.  Segundo o autor, existe em cada individuo uma essência, que vai se constituindo na interação com o exterior. Assim para Hall: “A identidade torna-se uma “celebração móvel”: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. ” [26]
Se a realidade se estabelece no processo de interação do homem no mundo, a identidade do sujeito não se constitui somente a nível empírico, mas tambémpela forma como nós nos enxergamos associada à forma como os outros nos vêem.
É perceptível na trajetória de J.S.C. aspectos de alteridade na qual a construção de sua identidade esta diretamente ligada à influência da classe social, tendo em vista que, o personagem em determinado momento assume uma postura instável e passa a ser influenciado a constituir-se como parte igualitária do meio: “Mas de repente sob uma má influência dos boyzinhos da cidade começou a roubar...”.[27]
Nesse sentido, Manuel Castells define identidade como “identidade de projeto”: “Quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural disposto ao seu alcance, procuram construir uma nova identidade capaz de redefinir a sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, buscam a transformação de toda a estrutura social.”  [28]

8.      O Plano
Em Faroeste Caboclo, percebemos desde os primeiros versos da canção, o sentimento de deslocamento vivenciado pelo personagem no espaço social no qual está inserido, a busca por um lugar em que ele se sinta aceito e compreendido. A trajetória de João de Santo Cristo é um confronto constante entre o que ele tenta ser e acaba sendo, entre fatores individuais e sociais.
Na música nota-se que nesse desejo de transformação, de renovação, de vida nova, a imagem de João em decorrência do contexto, oscila entre o vilão e o mocinho. A entrada de Maria Lúcia na vida de Santo Cristo é um desses momentos em que a vontade de redimir-se aflora no personagem: “Foi quando conheceu uma menina/ E de todos os seus pecados ele se arrependeu/Maria Lúcia era uma menina linda/E o coração dele pra ela o Santo Cristo prometeu”  [29]
A presença de Maria Lúcia na realidade de Santo Cristo implicará em várias decisões tomadas por ele, demonstrando, assim o quanto o contato com o outro, as relações intersubjetivas influem na visão e perspectiva do sujeito. A morte dela é um dos paradoxos na música, uma vez que, o enunciado em que é descrito confere certa ambigüidade ao fato.
Ao se apaixonar por Maria Lúcia, Santo Cristo novamente se põe em um estado de metamorfose, com vislumbres de um futuro, “Ele dizia que queria se casar” [30] e, para isso volta a ser um trabalhador comum, “E carpinteiro ele voltou a ser” [31], impelido pelo desejo de constituir família e a promessa de amor, “Maria Lúcia pra sempre vou te amar/E um filho com você eu quero ter” [32]. Porém, João, assim como existem vários outros no coletivo brasileiro na vida real,excluído e restrito a certo grau de mobilidade social, mais uma vez depara-se com a dificuldade de concretizar seus sonhos, de trabalhar e ser honesto. J.S.C. é coagido por aqueles que na esfera do poder, estão acima dele, a voltar para as atividades no crime. Essa condição a qual Santo Cristo está envolto nos traz a noção de assujeitamento desenvolvida por Michael Pêcheux:
Um processo de produção discursiva é concebido como uma máquina autodeterminada e fechada por si mesma, de tal modo que um sujeito-estrutura determina os sujeitos como produtores de seus discursos: os sujeitos acreditam que “utilizam” seus discursos quando na verdade são seus “servos” assujeitados, seus “suportes”.[33]
Para Pêcheux, a noção de sujeito está orientada pelo lugar de onde seu discurso tem origem, e esse discurso é concebido inconscientemente por valores, ideologias que determinam o sentido desse discurso. Desse modo o sujeito tem seu discurso e consequentemente suas ações, até certo ponto, limitado e condicionado pela formação ideológica que subjaz o seu pretenso ponto de vista.
Em Faroeste Caboclo, Santo Cristo é um jovem que mesmo com seus valores, “Não boto bomba em banca de jornal...” [34], ao ser pressionado pelas circunstâncias, é levado a acreditar que só se armando novamente poderá se salvar, uma vez que inconscientemente internaliza o resultado de sua recusa “Essas palavras vão entrar no coração / Eu vou sofrer as consequências como um cão” [35]. Pois, vivendo no meio em que impera, mesmo na clandestinidade, há disputa pelo poder e regras a ser cumpridas, de modo que ele sabe as poucas chances ou nenhuma alternativa que tem de sair da situação conflituosa, a qual se encontra.
Sem pretensão de aprofundar na teoria de Althusser, podemos dizer que Renato Russo, quando compôs a letra de Faroeste Caboclo, ainda que sem intenção, mostrou um personagem que desde o início de sua vida é conduzido a uma determinada formação social pela(s) ideologia(s) que estruturam a sociedade que em que vive.
Podemos perceber em Santo Cristo desde o começo de sua trajetória um sentimento de exclusão, de desencontro “Sentia mesmo que era diferente/Sentia que aquilo ali não era o seu lugar” [36], o que o leva pouco a pouco a ocupar um lugar à margem na estrutura social. Então ele na sua revolta, no seu não entendimento do que ocorre De escolha própria, escolheu a solidão” [37]

9.      Considerações

João de Santo Cristo era herói e anti-herói, bem e mal, mocinho e bandido, tudo isso em um único ser. A via-crúcis que foi a sua vida é semelhante à de muitos brasileiros que migraram e ainda migram para outras regiões em busca de melhores condições de vida. J.S.C. é, de certa forma, um retrato de todo o povo brasileiro.
O personagem foi posto em análisee suas varias facetas, diferentes entre si, mas que se relacionam, constituindo o sujeito que ele tornou-se, foram expostas durante tal processo. Em nenhum momento buscávamos a criação de um estereótipo ou de um herói nacional, mas a partir da análise do discurso musical do cantor e compositor Renato Russo na música Faroeste Caboclo, discorrer sobre as paratopias na identidade do tal João de Santo Cristo.
Entretanto, partindo do conceito de assujeitamento proposto em Aparelhos ideológicos de Estado, em que o indivíduo pensa estar agindo com total liberdade, quando na verdade age sob uma determinação de ordem ideológica, a escolha de solidão de Santo Cristo não foi própria, foi indiretamente imposta pelas circunstâncias sociais e econômicas, e de alguma forma, pelas instituições que gerem a sociedade (escola, igreja, outros). Santo Cristo é o retrato de uma multidão que, sem muitas opções, restam à ilusão de um plano santo. Porém, que não salva.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


1.      ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de estado. Rio de Janeiro, Graal, 1987.
2.      CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

3.      CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Contexto, 2006.

4.      CIAMPA, A. C. Identidade. In: S. T. M., Lane & W. Codo. Psicologia social: O homem em movimento (pp. 58-75). São Paulo: Brasiliense, 1981.
5.      HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.Trad. (Tomaz Tadeu da Silva, Guaracira Lopes Louro) 3. Ed. Rio de Janeiro. DP&A, 1999.
6.      MAIÁKOVSKI, Vladimir. Vida e poesia. São Paulo.Martin Claret, 2006
7.      MAINGUENEAU, Dominique. Doze Conceitos em Análise do Discurso. São Paulo. Parábola Editorial, 2010.
8.      PECHEUX, M. A Análise do Discurso: Três Épocas. (Trad. De J. de A. Romualdo). In: GADET, F. & HAK, T. (orgs.) Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

9.      Links consultados com acesso em setembro de 2011:


- Vagalume Letra e Música:
-Mestrando Fabrício Cordeiro Dantas1 (MLI/UEPB):
- Cláudia Aparecida de Oliveira Leite1:

- O Movimento de João de Santo Cristo no Mundo:
- O Movimento Punk no Brasil:
      -Identidade cultural e autonomia:

 - Renata Rocha Fernandes Gonçalves:





[1] Discentes do Curso de Letras, turma 2009.2, Universidade do Estado da Bahia - Departamento de Ciências Humanas e Tecnológicas - Campus XVI – Irecê – BA.
aluciasatur@hotmail.com, dmnazare@gmail.com, bigofsa@hotmail.com, luciana.letras2009@hotmail.com, ludembergpereira@hotmail.com, pauloe.sousa@hotmail.com, taisemergulhao1@hotmail.com
[2] Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação, da PPGE da Faculdade de Educação – FACED/UNEB, Linha 2 Filosofia, Linguagem e Práxis Pedagógica. Mestre em Educação docente, Currículo e Tecnologias intelectuais, da Universidade do Estado da Bahia – UNEB – Campus I – Salvador – Ba. Professor do curso de Letras e Pedagogia da UNEB – Campus XVI – Irecê – Coordenador do Núcleo de Linguagem e Tecnologias do Ciberespaço do Campus XVI – Irecê. jpgbarreto@gmail.com

[3] MAINGUENEAU, 1993, p 23.
[4] João de Santo Cristo.
[5] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[6] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[7] CHAROM, 1982, p18.

[8] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[9] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[10] HALL, 2005 p?.
[11] GONÇALVAES, 2002, p. 4.
[12] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[13] MAINGUENEAU, 2010, p. 162.

[14] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[15] CIAMPA, 1981, p. 61.
[16] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[17] MAIAKOVSKI, 2006, p.?
[18] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[19] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[20] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[21] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[22] CHARAUDEAU, 2005, p. 34.
[23] CHARAUDEAU, 2005, p. 48.
[24] CHARAUDEAU, 2005, p. 52.

[25] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[26] HALL, 2005 p. 13.
[27] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[28] CASTELLS, 1999, P. 22.
[29] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[30] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[31] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[32] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[33] PÊCHEUX, 1997, P. 311.

[34] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[35] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[36] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.
[37] Faroeste Caboclo, Legião Urbana.