sábado, 24 de setembro de 2011

A diversidade e seus fenômenos linguísticos presentes no livro A língua de Eulália juntamente com a experiência em visitar os nativos do Vale do Pati


A diversidade e seus fenômenos linguísticos presentes no livro A língua de Eulália
juntamente com a experiência em visitar os nativos do Vale do Pati

Ludemberg Pereira Dantas

Com a Diversidade Linguística, percebemos o quanto que a língua falada e escrita sofrem alterações que acabam gerando um estudo sobre a cultura de cada localização. No livro A Língua de Eulália, publicado em 1997 por Marcos Bagano, vemos uma valorização das palavras por parte das professoras e estudantes Vera, Sílvia e Emília, que vão de encontro a Irene, uma linguística que está escrevendo um livro sobre variação linguística. Eulália, uma empregada e amiga de Irene deixa transparecer “erros” de português, considerados inadequados para a Língua Padrão, com isso, lhe é ensinado os fenômenos da língua, a fim de explicar a lógica do funcionamento das variedades linguísticas para combater o preconceito linguístico.


Em consideração a essa diversidade, ao estudo e compreensão dos fenômenos linguísticos, tive a oportunidade de visitar e fazer a trilha do Vale do Pati, região da Chapada Diamantina, na Bahia. Lindo extenso e profundo, o Vale do Pati é considerado um dos vales mais belos do mundo. Suas encostas são cobertas por mata atlântica, o que o torna ainda mais especial.

Além do imenso prazer em estar em lugar onde a natureza reina com tanta beleza, tive a oportunidade de conhecer uma família de nativos que é única no local e assim, perceber sua forma de comunicação. Conheci também uma artista plástica chilena em formação, Marlene Molina Soto, tendo a oportunidade de “conversarmos” um pouco em espanhol e conhecer também sua cultura, tendo-a como companheira de trilha.

Escondido, com acesso restrito, (não existe estrada para carro) o Vale do Pati (foto à baixo) conheceu seus primeiros moradores no começo do século XX. Uma seca muito forte na região foi o motivo que levou os nativos dos arredores a buscarem no Vale fértil e úmido a sobrevivência.


Foto de Marlene Molina Soto, artista independente de nacionalidade chilena

Com o fortalecimento da cultura do café, o Vale do Pati junto com o Vale do Capão tornaram-se os maiores produtores de café da região. É nesse período que o Vale conhece o apogeu, contando com mais de dois mil moradores, um centro comunitário, com comércio e igreja. O café também foi o motivo de sua decadência, quando a política republicana da época, resolve estatizar e erradicar a cultura cafeeira para majorar os preços no mercado mundial. Essa politica dá início ao êxodo da maioria dos habitantes, e consequentemente o Vale recupera suas matas, que foram subtraídas para dar lugar às plantações do café. Hoje o Vale do Pati é protegido por seus moradores que não chegam a 50 pessoas e pelo Parque Nacional da Chapada Diamantina.

Foi a partir daí que comecei a ter a curiosidade de perceber os fenômenos linguísticos presentes naquela comunidade, onde vi união, respeito, educação, amor, em vivenciarem um lugar onde a paz reina entre família e é oferecida também aos turistas, uma vez que a família trata cada visitante com toda atenção possível.

Em contraponto à personagem Eulália, da obra de (Marcos Bagano), fiz uma relação com os moradores do Vale do Pati, a exemplo de Dona Raquel (foto à baixo) um exemplo de ser humano. Idosa, mãe de 14 filhos, onde 2 faleceram e os 12 permanecem no Vale com um comportamento fruto de uma educação humilde. O esposo hoje abriga em um povoado vizinho por motivos de saúde.


Foto de Marlene Molina Soto

Em diálogos e observações sobre o modo de falar de Eulália, a empregada e amiga de muitos anos de Irene, as jovens aprendem, perplexas, que palavras pronunciadas de forma considerada errada, como "os fósfro", "os home", "as pranta", "os broco", "as tauba", "os corgo", "a arvre", o "R caipira", "tamém", além da "língua de índio": mim fazer; são na verdade formas diferentes de pronúncia, e que não podem ser vistas pelos educadores como "erradas" ou "pobres", mas sim diferentes do padrão.

Em conversa com dona Raquel, percebi por exemplo, a pronúncia da palavra trabaiá, fenômeno conhecido como yeísmo, acontecido pela troca do LH por i devido a comodidade maior de pronunciar o i, quando “ela falava que seus filhos começaram a trabalhar muito cedo, onde todos sempre foram responsáveis”. Ainda referente ao yeísmo, temos o exemplo das palavras abêia: abelha, bataia: batalha, cuié: colher (substantivo), fia: filha, etc, muito comum também entre a família de dona Raquel.

O fenômeno rotacismo que é a troca de L por R pode ser explicado através da origem das palavras no latim. Exemplos: chicrete, frauta, frecha, pranta, ingrês, pubrica, Creusa, craro, prano, etc.

Muito gratificante também foi ouvir de dona Raquel, a apresentação de uma parte da mata (foto à esquerda) tida para ela como a “televisão”, por ser referente ao local onde a imprensa faz entrevistas com ela e família. Quando chega algum repórter, ela os leva para o local tido como cenário para suas entrevistas. Busquei ser fotografado no local e ainda brinquei com ela dizendo: - “vou tirar uma foto aqui dona Raquel pra dizer que sair na ‘Grobo’”, palavra pertencente ao fenômeno linguístico rotacismo.



A diversidade linguística, a diferenciação de um modo de falar de região para outra, apesar de sofrer certo preconceito, é explicado cientificamente, através da linguística, da história, da sociologia e até mesmo da psicologia, merecendo assim um respeito pela língua não padrão, uma vez que nos é permitindo o entendimento da mensagem.

A assimilação é outro fenômeno que ocorre com palavras usando a troca das consoantes de ND em N e de MB em M como, por exemplo, falando que passou a falanno e depois falano, pois o som dessas consoantes é próximo.

A redução ocorre quando as vogais E e O são pronunciadas como i e U.

A contração das proparoxítonas em paroxítonas ocorrendo também na norma padrão, visto que as palavras proparoxítonas em latim passaram a ser paroxítonas no português padrão, exemplos: ovo: ôvu; ele bebe: êli bebi; alegria: aligria; chovia: chuvia; cabeludo: cabeludo; fortuna: furtuna.

O arcaísmo que ainda permanece em regiões afastadas das metrópoles brasileiras, é outro fenômeno linguístico comum em nosso dia a dia, por exemplos: abancar-se (sentar-se, dispor à volta da banca); anágua (roupa íntima feminina); andaço (diarréia, pequena epidemia); apalermado (bobo, idiota); arigó (matuto); arrelia (zanga, briga, discórdia, barulho); biboca (cova, casebre); bigu (carona); bufete (pancada com a mão); brocoió (matuto); breguesso (objeto indefinido, coisa sem valor); bruaca (bolsa); cabroeira (coletivo de cabras); caçuá (cesto feito de cipós); califon (sutiã); cancela (porteira); candeia (lamparina), em fim.

A analogia causa a mudança de classe gramatical de algumas palavras por causa do som de uma vogal e o caso do pronome oblíquo mim que vem sendo um “erro” cometido desde 1872 como ficou registrado no romance Inocência, escrito pelo Visconde de Taunay, sendo muitas vezes usado pelos falantes da norma culta, pode ser explicado, dentre outras maneiras, pelo fato do pronome mim ser tônico e procurar enfatizar a oração como em “João trouxe um monte de livros para mim escolher”.

Comparando Eulália e Dona Raquel (foto à baixo), pude perceber o quanto que a variedade, juntamente com os fenômenos linguísticos são relevantes para o nosso comportamento social.


Foto de Marlene Molina Soto

Devemos respeitar cada cultura, cada vocabulário, no momento que eles têm um significado, buscando até mesmo aprendermos com a língua não padrão, onde cada dialeto passa a dar vida ao que consideramos “norma culta”.

É importante a valorização da língua portuguesa no seu estágio independente, até porque a língua, a diversidade linguística, sempre estarão em construção. Conhecer dona Raquel (nativa), Marlene (estrangeira) e os fenômenos linguísticos, foi para mim uma grande satisfação, em saber que toda uma gente, toda uma cultura, sempre apresentarão uma nova forma de vida, com comportamentos aceitáveis para a construção de uma identidade.


Marlene Molina Soto (foto):
“Eu achei que a viagem foi uma revelação de beleza e cultura.
Vale do Pati faz parte do nosso Planeta. Devemos cuida-lo e protege-lo sempre”.


Foto de Marlene Molina Soto



Referências Bibliográficas:

1. BAGNO, Marcos. A Língua de Eulália: novela sociolinguística. São Paulo: Contexto, 2008;

2. Sites visitados em setembro de 2011:

http://www.terrachapada.com.br/rt_trekkingnovaledopati.php;

http://odiabonomeiodarua.blogspot.com/2010/04/o-yeismo-uma-revolucao-linguistica.html.


2 comentários:

OUTONAL disse...

Lindo o seu blog, Bel. Que ideia genial! Parabéns!

Ludemberg Pereira Dantas disse...

Obrigado Cléo! Fique à vontade pra ler e comentar.
Bjos!

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