sábado, 18 de fevereiro de 2012

Luís de Camões

 Luís de Camões (1524-1580)


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois com ele tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim como a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Ludemberg Pereira Dantas

Luís Vaz de Camões, em referência ao soneto: “Transforma-se o amor na cousa amada”, eleva a sua visão de poeta que se classifica como um dos grandes pensadores da humanidade, fazendo presente a exaltação da mulher amada. O texto, distribuído em dois quartetos e dois tercetos, apresenta versos decassílabos e rimas //ABBA//ABBA//CDE//CDE//. No primeiro verso é perceptível o tema Amor, aonde o “eu lírico” é levado pelo romantismo do poeta.

A lírica amorosa de Camões, no soneto citado, exalta a mulher em uma perspectiva idealizada. O amor de uma mulher que Camões nunca possuiu, mas pensou. O amor ideal e ao mesmo tempo irreal. É presente em todo o seu pensamento, a “grandeza” do homem quem o foi na sua existência. Idealizava não a mulher da Corte, a dama, a bem-amada, mas o seu reflexo, o imaginário, criando ao contrário do amor possível, um amor platônico, longe de uma possibilidade, mas presenta no seu desejo.

Um amor capaz de corresponder o que a alma tem a transmitir de sincero, único, “divino”: “Pois com ele a alma está liada”. Assim, Camões “cria” a mulher dona do amor verdadeiro, com a ideia longe do possível de uma existência em matéria, mas presente na alma: “Assim com a alma minha se conforma”.

Partindo do pensamento de Platão, Camões o tem como grande referência a toda uma vida. A estética renascentista  com a qual o soneto faz relação, seja a matéria (como exemplo do corpo humano), ou uma pedra, até à alma (como algo divino), Camões pensa o Renascimento na visão de que tudo re-nasce, e o amor então, nunca terá o seu fim: “E o vivo e puro amor de que sou feito”.

O último verso do soneto: “Como a matéria simples busca a forma”, corresponde a um fim como início. Todo esse percurso que Camões apresenta, sua forma, sua visão racionalista, sentimental, amorosa, expressam a necessidade diante ao seu lugar como humano, capaz de amar a matéria e se permitir também ao amor da alma, mesmo diante das impossibilidades impostas pelo mundo, como o pecado, por exemplo, mas acreditar “assim como Camões” em um amor possível, possibilitando a todos viverem melhor.

14/12/2011

Um comentário:

Milton Cardoso disse...

Do ponto de vista analítico, o autor foi feliz, o que parece indicar sua desenvoltura com a poesia. Ele realmente captou os sentimentos do eu lírico e compreendeu aquilo que os críticos chamam de "visão da vida" do poeta. O ponto fraco é que o autor descarta a análise como possibilidade restrita à poesia, buscando referências da vida real.

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